sábado, 11 de junho de 2011

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Estes dias eu fui fazer um mini-curso sobre musica, teatro e história na escola, entramos em um debate sobre as cantigas de roda, começamos a relembrar nossa infância com as canções de ninar que nossas mães cantavam, as brincadeiras nas ruas com os amigos e como aquilo tudo era bom. éramos felizes e não sabíamos, porem entrou um assunto do politicamente correto, o que devíamos falar ou não para os alunos, quais cantigas poderiam ser cantadas, quando dei por mim, vi que tinha perdido toda a minha infância.
E recebi este  e-mail de uma amiga, de um  professor da UFRJ comentando sobre este assunto que debatemos.

Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.
Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam
mais "O cravo brigou com a rosa". A explicação da professora do
filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem
- e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na
nova letra "o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo
ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria
da Penha. Será que esses doidos sabem que "O cravo brigou com a
rosa" faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a
partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos,
cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi "Samba Lelê". Na versão
da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá
com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas
palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência
contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba
Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A
Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não
passar nunca. Os amigos sabem de quem é "Samba Lelê"? Villa Lobos de
novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: "Samba Lelê",
de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a
música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos.
Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete
namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina
fácil.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na
garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém (não me lembro exatamente quem se saiu com essa e
não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da
Aruanda) foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos
setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de
fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a
alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e
setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da
preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa
que o valha. "Baitolo", diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém
mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os
paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda
babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da
criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é,
nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou
leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O
crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) -
só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso
branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de
pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo
avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também
conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um
padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O
gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio,
Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso
ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de
virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de
mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o
Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa
tinha necessidades especiais. Não dá. O politicamente correto também
gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e
2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés
de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba
tomarnoolhodocu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da "Nona
Sinfonia" de Beethoven, entremeado pelo coro de "Jesus, alegria dos
homens", do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe
mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na
cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro
funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para
sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a
"melhor idade".

Se Deus quiser, morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde.
Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade dos Pés
Juntos.

Luiz Antônio Simas é Mestre em História Social
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
 
 
OBS: Podemos deixar nosso filhos cantar as novas cantigas do século XXI.


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